
Se você passou pelo GitHub nos últimos dias, deve ter esbarrado no REA. O nome vem de Reverse Engineer Anything, e a proposta é bem essa: você aponta um app instalado na sua máquina, pergunta pro seu agente de IA como determinada função funciona, e ele abre o binário, segue as chamadas e te devolve a explicação junto com as evidências.
Na mesma semana, um dev chamado Brandon Thomas soltou o ArtCraft, um pacote de sete apps open source que imitam Photoshop, Illustrator, Premiere, Lightroom, After Effects, InDesign e Acrobat. Tudo feito com IA. Ele mesmo chegou a dizer que "o software acabou".
As duas coisas juntas dizem bastante sobre pra onde a gente tá indo.
Muita gente nas redes juntou as duas notícias como se os clones da Adobe tivessem saído do REA. Não há nenhuma confirmação disso. O ArtCraft foi feito com o Claude Opus 5.5 e escrito em Rust, e o próprio REA deixa claro que não recupera código-fonte original nem clona apps automaticamente. Ele ajuda a entender como uma funcionalidade funciona para você construir a sua versão.
O que é o REA, na prática
O REA é um servidor MCP e uma ferramenta de linha de comando. Ele conecta agentes como Claude Code, Codex e Cursor a ferramentas clássicas de engenharia reversa (Ghidra, Hopper ou IDA) e faz o trabalho chato de ligar tudo isso.
Ele consegue analisar binários nativos, apps em JavaScript e Electron, assemblies .NET, APKs de Android, sites, firmware e por aí vai. A análise roda localmente, o app não vai para servidor nenhum, e o projeto é licenciado em MIT.
Para testar, basta ter Node.js instalado:
npx rea-agents setupDepois é só pedir ao agente algo como "entenda como a busca funciona no app X, me mostre as evidências e construa algo parecido no meu projeto".
Os números da semana
- REA: passou de 94 mil estrelas e 21 mil forks no GitHub.
- ArtCraft: sete apps, rodando em Windows, macOS e Linux, alguns também no navegador via WebAssembly.
- Paridade prometida: 100% em um mês, depois revisada para 99% em menos de um ano.
- Paridade real hoje: algo entre 25% e 35%.
O que me animou
Engenharia reversa sempre foi uma das áreas mais chatas e difíceis da computação. Você precisava conhecer assembly, dominar uma ferramenta específica e ter paciência infinita. O REA não elimina isso, mas joga a barreira de entrada lá embaixo.
Pra quem trabalha com segurança, faz manutenção de sistema legado sem documentação ou só quer entender como um app resolveu um problema, é um ganho real.
E o ArtCraft, mesmo cru, mostra que uma pessoa sozinha consegue em semanas começar algo que antes precisava de um time inteiro por anos. Pra quem paga assinatura da Adobe todo mês e usa 10% do que o programa faz, ter uma alternativa gratuita com a mesma cara é bem atraente.
O que me preocupa
Promessa grande, entrega pequena
Recriar a interface é a parte fácil. O difícil é o preenchimento inteligente, a performance com arquivo pesado, os vinte anos de casos extremos que a Adobe já resolveu. Hoje o ArtCraft tem gente reclamando de atalho que não funciona e edição básica travando. É alpha, e alpha bem inicial.
A zona cinzenta jurídica
O Brandon chama o projeto de clean-room, que é quando um time estuda o original e outro reescreve do zero sem copiar nada. Só que quando a mesma IA faz as duas partes, essa separação fica nebulosa. E a Adobe tem milhares de patentes. Duvido que ela fique só olhando.
Ferramenta de dois gumes
O REA deixa claro que é para pesquisa legal, mas a mesma coisa que te ajuda a entender um app ajuda alguém a achar falha nele. Quem defende sistemas vai ganhar velocidade, e quem ataca também.
Se você vende software fechado, vale assumir a partir de agora que qualquer pessoa com um agente consegue entender como ele funciona. Segredo no binário não é mais proteção. Chave de API embutida no app, regra de negócio no front e validação só no cliente viraram risco ainda maior.
E o futuro do open source?
Acho que o modelo de "o código é meu segredo" está ficando frágil. Se qualquer um consegue entender seu software olhando o binário, esconder o código protege bem menos do que antes. O valor vai migrar para outras coisas: suporte, dados, comunidade, velocidade de evolução e confiança.
O open source sai fortalecido, mas com um problema novo. Projeto aberto vive de mantenedor, e mantenedor já é pouco. Se agora surgem dez clones por semana gerados por IA, quem vai manter tudo isso daqui a dois anos? Lançar ficou barato. Manter continua caro.
Minha aposta: a gente vai ver muito clone nascendo e morrendo rápido, e poucos sobrevivendo. Os que ficarem vão ser os que tiverem gente de verdade cuidando, não os que tiverem o melhor prompt.
Fontes
- GitHub — morluto/rea
- RuntimeWire — Matthew Berman promove o REA
- Mezha — Clone do Photoshop e outros apps da Adobe com Claude Opus 5.5
- ProPakistani — Cópias open source de Photoshop, Premiere e Lightroom
- TweakTown — "Software is over"
A pergunta que fica não é se o software vai acabar, mas quem vai continuar cuidando dele quando criar uma cópia custar uma tarde e manter custar uma vida inteira. E você, largaria a Adobe por um ArtCraft da vida quando ele estiver mais maduro?